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⚠ Farmacologia & Nutrição

Mounjaro (Tirzepatida): o que a ciência realmente diz sobre benefícios, riscos e o papel da nutrição

Por Roberta Marchon CRN 4 – 131.006-25 Junho 2026 Leitura: 10 min

O Mounjaro (tirzepatida) virou assunto em clínicas, redes sociais e consultórios. Mas entre a euforia e o medo, o que dizem os estudos científicos de verdade? Este artigo analisa com rigor a evidência disponível — mecanismo de ação, eficácia, efeitos adversos e o papel indispensável da reeducação alimentar.

Frasco de medicamento e seringa - representação de tratamento farmacológico para obesidade
O Mounjaro é administrado por injeção subcutânea semanal. Seu uso exige prescrição e acompanhamento médico e nutricional.
⚠ Aviso importante

Este artigo é educativo e não substitui avaliação médica nem nutricional individualizada. O uso de tirzepatida exige prescrição médica e acompanhamento multiprofissional. Automedicação com este fármaco é perigosa e potencialmente fatal.

O que é a tirzepatida e como ela age no organismo

A tirzepatida é um agonista dual dos receptores GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1), desenvolvida pelo laboratório Eli Lilly. Aprovada inicialmente para diabetes tipo 2 pelo FDA em 2022 e pela ANVISA em 2023, também foi aprovada para obesidade em 2023 sob o nome comercial Zepbound nos EUA.

Seu mecanismo é diferente dos GLP-1 puros como a semaglutida (Ozempic/Wegovy): ao ativar simultaneamente dois receptores incretínicos, ela potencializa a secreção de insulina, reduz o glucagon, retarda o esvaziamento gástrico e — crucialmente — age em centros hipotalâmicos de saciedade, reduzindo significativamente a ingestão calórica.

Mecanismo dual: por que isso importa?

O receptor GIP, quando ativado em conjunto com o GLP-1, parece potencializar a redução do apetite e melhorar a sensibilidade à insulina no tecido adiposo. Essa ação combinada é o que diferencia a tirzepatida dos outros medicamentos da classe e explica os resultados mais expressivos nos ensaios clínicos.

Pesquisadora em laboratório analisando dados de estudos clínicos
Os ensaios clínicos do programa SURMOUNT representam um dos maiores programas de pesquisa em obesidade já realizados, com mais de 5.000 participantes no total.

Os estudos que sustentam o uso: programa SURMOUNT

O programa de ensaios clínicos SURMOUNT (fase 3) é a principal base de evidências para tirzepatida em obesidade. Estes são os estudos centrais:

Estudo 1 · SURMOUNT-1 (2022)
Tirzepatida Once Weekly for the Treatment of Obesity

2.539 adultos com IMC ≥30 (ou ≥27 com comorbidade) sem diabetes. Duração: 72 semanas. Doses testadas: 5mg, 10mg e 15mg semanais vs. placebo.

Resultados: Redução média de peso de 15% (5mg), 19,5% (10mg) e 20,9% (15mg) vs. 3,1% no placebo. Participantes com a dose máxima perderam, em média, 23,6 kg. 91% dos pacientes na dose 15mg alcançaram ≥5% de redução de peso.

Publicado: NEJM, 2022 · DOI: 10.1056/NEJMoa2206038
Estudo 2 · SURMOUNT-2 (2023)
Tirzepatida em pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade

938 participantes com diabetes tipo 2 e IMC ≥27. Doses de 10mg e 15mg por 72 semanas.

Resultados: Redução de peso de 13,4% (10mg) e 15,7% (15mg). Redução expressiva de HbA1c (–2,1%). Superioridade significativa frente ao placebo em todos os desfechos.

Publicado: Lancet, 2023 · DOI: 10.1016/S0140-6736(23)01200-X
Estudo 3 · SURMOUNT-4 (2024)
Manutenção do peso após interrupção vs. continuidade do tratamento

Participantes que perderam ≥20% do peso com tirzepatida foram randomizados para continuar o fármaco ou trocar para placebo por 52 semanas.

Resultados críticos: Quem continuou o fármaco perdeu mais 5,5% adicionais. Quem parou recuperou 14% do peso perdido em 52 semanas — confirmando que o efeito é dependente do uso contínuo.

Publicado: JAMA, 2024 · DOI: 10.1001/jama.2024.0052

Prós e contras: análise equilibrada

✓ Benefícios documentados

  • Maior perda de peso já registrada para medicamento — até 22,5% do peso corporal
  • Redução significativa de HbA1c em diabéticos tipo 2
  • Melhora de triglicerídeos, HDL e pressão arterial
  • Redução do risco cardiovascular (estudo SURPASS-CVOT em andamento)
  • Melhora da esteatose hepática não alcoólica (NASH)
  • Redução da circunferência abdominal (gordura visceral)
  • Melhora do sono e apneia obstrutiva (estudo SURMOUNT-OSA, 2024)

✗ Riscos e limitações

  • Náusea (44%), vômitos (25%), diarreia (23%) — principalmente no início
  • Risco de pancreatite aguda — contraindicado em histórico da doença
  • Risco teórico de carcinoma medular de tireoide (observado em ratos; contraindica uso em MEN-2)
  • Colelitíase (pedras na vesícula): risco aumentado com perda de peso rápida
  • Perda de massa muscular (sarcopenia): até 30–40% do peso perdido pode ser massa magra sem suporte nutricional e treino
  • Efeito rebote expressivo ao descontinuar sem reeducação alimentar estabelecida
  • Custo elevado e indisponibilidade pelo SUS
  • Dados de segurança a longo prazo (>5 anos) ainda incompletos
Pesagem corporal - monitoramento de peso durante tratamento
Monitoramento de peso e composição corporal é essencial durante o tratamento
Alimentação saudável e equilibrada durante tratamento farmacológico
A qualidade nutricional das refeições define o sucesso do tratamento

O problema que ninguém discute: a perda de massa muscular

Um dado frequentemente ignorado nas redes sociais: nos ensaios do SURMOUNT-1, análises de composição corporal mostraram que aproximadamente 39% do peso perdido era massa magra (músculo, osso, água intracelular). Em pessoas mais velhas ou sedentárias, esse percentual pode ser ainda maior.

A sarcopenia induzida por emagrecimento rápido aumenta o risco de quedas, reduz o metabolismo basal (dificultando a manutenção do peso futuro) e compromete a função física. Estudos como o de Wilding et al. (2021) e análises de Rubino et al. (2022) reforçam que o acompanhamento nutricional com ingestão proteica adequada e treinamento resistido é essencial, não opcional.

O que acontece sem acompanhamento nutricional?

Sem uma estratégia alimentar estruturada, o uso de tirzepatida pode resultar em ingestão proteica insuficiente (pela supressão do apetite), perda acelerada de músculo, deficiências de micronutrientes (vitamina B12, ferro, zinco, cálcio) e — ao parar o medicamento — recuperação quase integral do peso perdido, agora com composição corporal pior do que antes.

Quem pode e quem não deve usar

Indicações com evidência

Contraindicações absolutas

O papel insubstituível da nutrição durante o tratamento

A tirzepatida reduz o apetite — mas não orienta o que comer. É exatamente aí que o acompanhamento nutricional se torna decisivo. Uma revisão de 2023 publicada na Obesity Reviews (Anastasiou et al.) demonstrou que intervenções farmacológicas combinadas com suporte nutricional estruturado resultaram em menor perda de massa muscular, manutenção mais duradoura do peso e melhor qualidade de vida comparadas ao uso isolado do medicamento.

Prioridades nutricionais durante o uso de tirzepatida incluem: garantir ingestão proteica de 1,2 a 1,6g/kg/dia; fracionar refeições para lidar com a saciedade precoce; suplementar micronutrientes conforme avaliação individual; e estruturar uma estratégia alimentar sustentável para depois da descontinuação.

Roberta Marchon
Roberta Marchon
Nutricionista · CRN 4 – 131.006-25

Nutricionista clínica com experiência hospitalar. Atende pacientes em uso de medicamentos para obesidade com foco na preservação de massa muscular, adequação nutricional e construção de hábitos sustentáveis. Atendimento presencial em Itaboraí, RJ e online para todo o Brasil.

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Referências científicas

1Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205–216. DOI: 10.1056/NEJMoa2206038
2Garvey WT et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity in people with type 2 diabetes (SURMOUNT-2). Lancet. 2023;402(10402):613–626. DOI: 10.1016/S0140-6736(23)01200-X
3Aronne LJ et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity (SURMOUNT-4). JAMA. 2024;331(1):38–48. DOI: 10.1001/jama.2024.0052
4Rubino DM et al. Effect of Continued Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Placebo on Weight Loss Maintenance in Adults With Overweight or Obesity — The STEP 4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2021;325(14):1414–1425. (referência comparativa classe GLP-1)
5Anastasiou CA et al. Dietary interventions combined with pharmacological obesity treatment: A systematic review. Obesity Reviews. 2023;24(11):e13629. DOI: 10.1111/obr.13629
6Wilding JPH et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2021;384:989–1002. (dados comparativos de composição corporal)
7Eli Lilly and Company. Prescribing Information — MOUNJARO® (tirzepatide) injection. 2023. Revisado em 2024.
8Wadden TA et al. Lifestyle modification in the pharmacological treatment of obesity: current evidence and future directions. Current Obesity Reports. 2023;12(3):290–303.